Falta de capital de giro compromete funcionamento de pequenos negócios

Goianésia- O Brasil alcançou o maior número de empresas inadimplentes já registrado. Atualmente, 8,9 milhões de CNPJs possuem dívidas em atraso, quase o dobro do contabilizado há dez anos, quando o país somava 5,1 milhões de empresas negativadas. O volume total das dívidas chega a R$ 213 bilhões, com forte concentração entre micro e pequenas empresas, responsáveis por 8,5 milhões dos registros e R$ 185 bilhões desse montante. Em média, cada empresa inadimplente acumula sete contas em atraso.

Para Paulo Pedroso, sócio-diretor de corporate e crédito da Aliá Partners, o avanço da inadimplência ocorre em um cenário de crédito mais caro e seletivo.

“A combinação atual tem sido perfeita para quebrar empresas. Temos juros no maior patamar desde 2006, crédito mais difícil de acessar e um consumidor com poder de compra corroído pela inflação. Cada um desses fatores já seria um problema isolado. Juntos, criam um círculo vicioso: a empresa não consegue pagar as parcelas, os bancos se tornam mais restritivos, o crédito desaparece e o caixa fica ainda mais pressionado.

As micro e pequenas empresas são as mais impactadas porque não têm acesso aos mesmos instrumentos financeiros das grandes corporações. Empresas de grande porte conseguem captar recursos no mercado de capitais, emitir debêntures e negociar diretamente com bancos em condições diferenciadas. Já os pequenos negócios dependem de linhas como cheque especial, antecipação de recebíveis e crédito rotativo, justamente as modalidades mais caras e de curto prazo. Esse tipo de crédito compromete o fluxo de caixa e aumenta rapidamente o endividamento.”

A taxa básica de juros em níveis elevados encarece o capital de giro e reduz as margens de lucro, principalmente em setores mais dependentes do consumo, como o de serviços, responsável por mais da metade dos registros de inadimplência. Ao mesmo tempo, instituições financeiras têm restringido a concessão de crédito, limitando as alternativas para empresas que precisam de liquidez para manter as operações.

Segundo o especialista, um dos principais erros das empresas é utilizar crédito de curto prazo para cobrir despesas permanentes.

“O erro mais comum é usar crédito de curto prazo para pagar custos fixos de longo prazo. O empresário atrasa salários, utiliza o limite bancário para cobrir despesas e, no mês seguinte, o problema se repete com juros ainda maiores. Isso não resolve a crise, apenas a adia.

O crédito bem utilizado deve ter um propósito claro: financiar capital de giro para um ciclo específico, investimentos com retorno mensurável ou a reestruturação de passivos mais caros. Quando o crédito vira uma muleta para cobrir ineficiência operacional, transforma um problema administrável em uma situação irreversível.”

Diante desse cenário, a reestruturação de dívidas tem ganhado espaço entre as estratégias adotadas pelas empresas. A troca de débitos mais caros por linhas de crédito com melhores condições, especialmente operações com garantia, além do alongamento de prazos, surge como alternativa para reorganizar o fluxo de caixa.

“O primeiro passo é mapear os passivos com clareza: entender quanto se deve, quais são os custos financeiros, os prazos de vencimento e as garantias oferecidas. Sem um diagnóstico preciso, qualquer medida é tomada no escuro.

A prioridade deve ser atacar as dívidas mais caras, porque são elas que consomem o caixa de forma mais agressiva. Sempre que possível, é importante renegociar prazos e alongar vencimentos. No cenário atual, reduzir juros é mais difícil, mas empresários que possuem imóveis podem recorrer ao crédito com garantia, que oferece taxas menores e prazos mais longos, chegando a até 15 anos.

Acima de tudo, o mais importante é não esperar a situação se transformar em uma crise grave. Quem negocia cedo ainda tem poder de barganha; quem demora perde essa janela.”

Apesar das dificuldades, o cenário também abre espaço para movimentos estratégicos no mercado. Empresas mais organizadas financeiramente conseguem acessar crédito em condições mais competitivas e, em alguns casos, ampliar participação no mercado. Em meio à fragilidade generalizada, negócios mais estruturados encontram oportunidades que dificilmente surgiriam em períodos de maior estabilidade econômica.