Goianésia- As recentes alterações no processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) têm provocado discussões entre profissionais do trânsito e da educação viária. A flexibilização, definida por resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), elimina a obrigatoriedade das provas de baliza para automóveis e de rampa para motocicletas, com a justificativa de simplificar o exame prático. A medida, no entanto, levanta questionamentos sobre os reflexos na preparação dos novos condutores.
Para o especialista em trânsito e pesquisador em planejamento urbano e mobilidade da Universidade Estadual de Goiás (UEG), doutor Vinícius Polzin, o cenário exige cautela e avaliação criteriosa dos impactos dessas mudanças no processo de habilitação.
“O órgão público segue aplicando os exames dentro das normas vigentes. No entanto, o trânsito é um sistema complexo e dinâmico. As cidades enfrentam crescimento da frota e intensificação dos conflitos viários. Conduzir um veículo não se resume à técnica; envolve compreender o funcionamento da cidade, já que o trânsito é parte do espaço urbano”, analisa.
Segundo o pesquisador, a retirada de etapas como a baliza e a rampa gera controvérsia e não seria o momento mais adequado para esse tipo de alteração. Ele pondera, contudo, que ainda não há consenso sobre o peso isolado dessas provas na avaliação da capacidade de condução, considerando que o trânsito exige atenção contínua, percepção de risco e habilidade para lidar com situações imprevisíveis.
Vinícius defende que a formação dos motoristas esteja mais conectada à realidade das vias. Para ele, o processo educativo deve enfatizar o cumprimento das normas, a convivência segura com pedestres e ciclistas e a capacidade de enfrentar congestionamentos e desafios cotidianos do ambiente urbano.
“O papel do instrutor é formar condutores conscientes, não apenas preparar candidatos para o exame. Em muitos casos, o treinamento se limita à aprovação na prova. Questões como a distração ao volante precisam ser observadas com maior rigor, especialmente o uso do celular, que se tornou um dos principais fatores de risco no trânsito”, avalia.
As mudanças no exame prático repercutem diretamente na rotina das autoescolas, que precisam ajustar seus métodos de ensino. Em Goianésia, a instrutora de trânsito Ana Lúcia considera que a simplificação das etapas não deve ser interpretada como flexibilização na formação.
“Vejo essa decisão como um retrocesso. Saber realizar rampa e baliza faz parte da condução no dia a dia. Mesmo que essas manobras não sejam exigidas na prova, continuarei ensinando meus alunos. Essas mudanças não contribuem para a organização do trânsito e podem trazer consequências”, afirma.
Entidades ligadas ao setor reforçam que, independentemente das alterações no exame, a formação responsável permanece como prioridade. Educação para o trânsito, aulas teóricas consistentes e prática supervisionada seguem como elementos centrais para preparar condutores aptos a enfrentar os desafios das vias urbanas e rodoviárias.




