Jovem conciliou estudos e trabalho até alcançar a vaga

Goianésia- A aprovação de um jovem goianesiense em um dos cursos mais disputados do país chama a atenção não apenas pelo resultado, mas pela trajetória construída ao longo de anos de dedicação. Aos 19 anos, Guilherme Guimarães conquistou uma vaga em Medicina na Universidade de São Paulo e também na Universidade Federal de Goiás, feito que projeta o nome de Goianésia no cenário acadêmico nacional e evidencia o impacto da educação pública aliada à persistência individual.

Em entrevista exclusiva à RVC FM, Guilherme contou que a notícia da aprovação na USP chegou em um momento de tensão. “Saiu no dia 23 o resultado, era uma sexta-feira, e eu estava no trabalho ainda. O resultado ia sair às 10 horas da manhã. Comecei a trabalhar, era 9h50 e não tinha saído. Saí às 11 horas, já agoniado, suando frio”, relatou. Segundo ele, foi preciso interromper as atividades após um colega perceber o nervosismo. “Entrei no site, procurei meu nome na lista e, na hora em que vi meu nome, falei: ‘Meu Deus do céu, não é possível. Consegui’.”

Mesmo confiante na pontuação obtida no Enem, Guilherme descreveu a mistura de expectativa e incerteza até a divulgação oficial. “Eu estava bem cético ainda, confiante, mas sem ter certeza de que poderia dar certo. Fiquei muito feliz, escorreram boas lágrimas. Foi um momento de felicidade absurda.”

Com média 815 no exame, a maior já registrada entre goianesienses nos últimos anos no Enem, ele também garantiu vaga na UFG poucos dias depois. “A USP saiu primeiro e me fez dormir melhor. Depois, no dia 29, saiu a outra. A animação ficou maior ainda, porque eu já tinha a opção de escolher.”

Escolha pela USP

A decisão pela USP, segundo ele, foi tomada após conversa com a família. “Já estou bem decidido. Conversei com a minha família e optei pela Universidade de São Paulo.” O curso começa oficialmente no início de fevereiro, com uma semana de recepção antes das aulas. “Quero estar lá para ser recebido e ter uma integração maior, até porque não conheço muita gente da cidade.”

Ao falar sobre a escolha pela carreira médica, Guilherme voltou à infância e às experiências familiares. “Desde criança sempre existiu em mim essa vontade de ser médico. Sempre fui muito apegado ao meu avô, à minha avó, à minha mãe e à minha irmã. Quando surgia algum problema de saúde, eu via o papel do médico como uma função muito importante para a sociedade, que acalma as pessoas e proporciona mais dignidade de vida.” Para ele, a profissão sempre esteve associada ao cuidado e à possibilidade de transformar realidades.

Formação na rede pública

Morador do bairro Dona Fiica, próximo ao quartel, Guilherme construiu toda a formação em escolas públicas. “Sempre estudei em escola pública. Passei pelo Hermínio Lopes, depois pelo Elisiário, pela escola Pedro Mendonça e, no ensino médio, fui para o José Carrilho.” Foi nesse período que começou a compreender a exigência dos vestibulares. “Ali eu entendi que não bastava só querer. Eu precisava buscar mais e me desenvolver.”

Apoio familiar

Filho de Valéria, diarista, e criado pelo padrasto Valdeir, trabalhador do campo, Guilherme destacou o apoio da família como decisivo. “Nunca pensei em desistir. Minha família sempre me apoiou. No ano passado, minha mãe falou: ‘Eu vou dar meu jeito aqui, você pode estudar’.”

Segundo ele, a base emocional fez toda a diferença. “Mesmo sendo uma família humilde, isso é muito maior do que qualquer dinheiro, saber que eles estão ao meu lado, me apoiando, independentemente de qualquer coisa.”

Rotina de estudos e trabalho

Além da rotina intensa de estudos, o jovem conciliou a preparação para o Enem com o trabalho na Jalles, onde atuou como jovem aprendiz e, depois, como auxiliar na centrífuga de açúcar. “De manhã eu estudava, fazia exercícios; à tarde ia para o SENAI; à noite, para o cursinho. Teve dia de eu ficar acordado até meia-noite para dar conta”, contou. Segundo ele, a jornada foi pesada, mas sustentada pela disciplina. “Consegui manter o foco e sempre direcionado ao que eu queria.”

O professor Rodrigo Vieira, proprietário do cursinho Ciclo, onde Guilherme se preparou, também participou da entrevista e relembrou a emoção ao receber a notícia. “Quando ele me mandou a mensagem, eu estava em sala e precisei sair um pouco para processar a informação. A gente acompanha esses alunos por tanto tempo que passa a viver o sonho junto.”

Para o educador, o caso simboliza uma mudança cultural na cidade. “Existia a ideia de que, para passar em um grande vestibular, era preciso estudar fora. Hoje vemos cada vez mais goianesienses ingressando em grandes universidades.”

Rodrigo explicou que o cursinho mantém um sistema de bolsas por mérito. “O Guilherme, durante um período, foi bolsista. Temos alunos que estudaram três anos sem pagar mensalidade e hoje cursam Medicina em universidades federais.”

Planos para o futuro

Ao projetar o futuro, Guilherme afirmou que está aberto às descobertas da graduação, mas revelou uma preferência inicial. “Tenho muita vontade de ser cirurgião cardiovascular. Não sei se isso vai mudar, porque ao longo do curso criamos afinidades, mas hoje o coração palpita para isso.”

Aos outros jovens, deixou um recado direto: “Busquem sempre, independentemente da realidade. Cada um tem uma trajetória diferente, alguns precisam se esforçar mais, outros abrir mão de muitas coisas, mas sempre que você sentir no coração que quer fazer algo, vá atrás, apesar das dificuldades”, concluiu.