Relações conturbadas são marcadas por sentimento de posse

Goianésia- O aumento dos casos de feminicídio em Goiás tem gerado preocupação e intensificado o debate sobre a violência contra a mulher. Episódios recentes evidenciam uma realidade persistente no país, marcada por crimes que, na maioria das vezes, ocorrem dentro de casa e são cometidos por pessoas próximas às vítimas.

Em entrevista exclusiva à RVC FM, no Fatorama 1ª edição, a analista comportamental Eliene Campos apresentou dados que ajudam a dimensionar o problema. “Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, na última década nós tivemos uma alta de 316% no número de mortes contra mulheres. Em 2025 tivemos 1.470 casos, a maior marca até então. Isso significa que quatro mulheres morrem todos os dias”, afirmou.

A especialista também comentou a posição de Goiás no ranking nacional. “Goiás está numa classificação significativa, em 9º lugar. Isso é algo preocupante, Goiás é considerado um dos estados com elevados índices de crimes contra as mulheres”, disse.

Contradições entre leis e aumento da violência

Mesmo com avanços na legislação e na ampliação de campanhas educativas, o crescimento dos casos levanta questionamentos. “Nós estamos em uma época em que há informação disponível. Temos a Lei do Feminicídio e uma legislação recente, de 2024, que aumenta o rigor das punições. Então, o que está acontecendo? Esse aumento da violência segue na contramão”, avaliou.

Perfil psicológico do agressor

Ao analisar o comportamento dos autores desses crimes, Eliene Campos descreveu características recorrentes. “O homem violento é caracterizado pela necessidade de controle, comportamento manipulador e baixa tolerância à frustração”, explicou.

Ela relacionou esse perfil a aspectos da formação social. “Estamos falhando na educação emocional. Muitos não aprendem a lidar com frustrações e limites. Existe uma tendência ao narcisismo, em que o indivíduo se coloca como centro de tudo. Quando essa expectativa não é atendida, surge tensão e, em alguns casos, comportamento agressivo”, afirmou.

Sinais de alerta no cotidiano

A analista detalhou comportamentos que podem indicar risco antes de situações mais graves. “Essas pessoas não se tornam violentas de forma repentina. Os sinais aparecem ao longo do tempo”, explicou.

Entre os indícios estão atitudes de controle e possessividade. “O agressor costuma interferir na forma de vestir da parceira, monitorar redes sociais, humilhar e ofender verbalmente”, disse.

Violência começa antes da agressão física

Outro ponto abordado foi o ciclo da violência, que tende a se repetir dentro das relações. “Esse processo começa muito antes da agressão física e vai se intensificando ao longo do tempo”, afirmou.

Segundo a especialista, diferentes formas de violência antecedem os casos mais graves. “Começa com violência psicológica, patrimonial, moral e sexual, até chegar à agressão física, que pode ser fatal”, explicou.

Crimes acontecem dentro de casa

A proximidade entre vítima e agressor é uma característica recorrente. “Cerca de 60% dos casos acontecem dentro de casa, e 90% dos agressores são companheiros ou ex-companheiros”, destacou.

Ela também chamou atenção para a dificuldade de identificação dessas situações. “Dentro de casa, muita coisa não é vista por vizinhos ou pelas autoridades”, pontuou.

Influência cultural e redes sociais

A especialista apontou ainda a influência de conteúdos disseminados na internet. “Existem movimentos digitais, como a chamada ‘machosfera’, que ganham espaço e impactam a forma como alguns homens enxergam as relações”, afirmou.

Segundo ela, essas narrativas podem gerar distorções. “Há quem interprete a busca por igualdade como uma ameaça ao papel masculino, o que contribui para conflitos e comportamentos extremos”, explicou.

Orientação e canais de ajuda

Ao final, Eliene Campos reforçou a necessidade de buscar apoio diante de situações de violência. “Se alguém vive esse tipo de situação dentro de casa, é fundamental procurar ajuda. Não espere que a situação se agrave. Existem canais como o Disque 180 e as delegacias especializadas”, concluiu.