Goianésia-O número de famílias brasileiras com algum tipo de dívida atingiu o maior patamar da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O cenário reflete um conjunto de fatores que tem pressionado o orçamento doméstico, como o aumento do custo de vida, o acesso facilitado ao crédito e as dificuldades para formar uma reserva financeira capaz de absorver despesas inesperadas.
Em entrevista exclusiva ao Fatorama, o economista Gean Pablo Ázara analisou as razões que ajudam a explicar o atual quadro e os reflexos para as famílias e para a economia do país.
Juros elevados e falta de reserva financeira
Na avaliação do especialista, um dos principais fatores por trás do aumento do endividamento é o elevado custo do crédito no Brasil. Segundo ele, muitas famílias conseguem manter o pagamento das parcelas inicialmente, mas acabam enfrentando dificuldades quando surge uma despesa não planejada.
“Como ela não tem uma segurança financeira, como ela não tem uma poupança, um investimento para pequenos incidentes da vida, por exemplo, a criança precisa fazer um canal. Ela tem que optar entre continuar pagando a prestação ou cuidar da saúde da criança. Então, atrasa uma parcela. Quando isso acontece, a dívida começa a aumentar consideravelmente”, explicou.
De acordo com Gean, a combinação entre juros elevados e ausência de planejamento financeiro cria um ambiente favorável ao crescimento da inadimplência. A situação se torna ainda mais delicada quando as famílias recorrem ao cartão de crédito para custear despesas básicas do dia a dia.
Cartão de crédito pode acelerar o problema
O economista chamou atenção para o uso recorrente do crédito rotativo, modalidade considerada uma das mais caras do mercado. Segundo ele, muitas famílias acabam entrando em um ciclo difícil de interromper.
“Ela recebe o salário. Não tem condição de pagar o cartão de crédito e as demais despesas. Então, paga a fatura, o limite é liberado e ela continua consumindo no próprio cartão. Na primeira vez em que surgir uma situação inesperada e ela não conseguir pagar, a bola de neve começa”, afirmou.
O impacto dos juros compostos faz com que dívidas inicialmente pequenas cresçam rapidamente.
“Quando se vê, uma dívida de três mil reais, dependendo de um ou dois anos, pode chegar facilmente a cinquenta ou sessenta mil reais.”
Brasil tem uma das maiores taxas de juros reais do mundo
Durante a entrevista, o economista destacou que o país ocupa uma das primeiras posições no ranking mundial de juros reais, indicador calculado a partir da diferença entre a taxa básica de juros e a inflação.
“Para vocês terem uma ideia, a taxa de juros do Brasil é a segunda maior taxa de juros real do mundo. E essa é apenas a taxa de referência. As taxas praticadas pelos bancos e instituições financeiras são muito maiores”, disse.
Na visão do especialista, esse cenário dificulta o acesso ao crédito saudável e aumenta os riscos para consumidores que enfrentam problemas financeiros.
Jogos on-line entram no radar dos especialistas
Outro aspecto mencionado durante a conversa foi o crescimento dos gastos com apostas on-line. Embora não seja apontado como o único motivo para o aumento das dívidas, Ázara considera que a prática tem retirado recursos importantes do orçamento familiar.
“Alguns centros de pesquisa já apontaram que os jogos on-line estão atrapalhando muito a renda das famílias. A pessoa tira uma parte do dinheiro que poderia ser utilizada para outras necessidades e direciona para apostas.”
O economista observou que essa mudança nos hábitos de consumo merece atenção, principalmente em lares que já convivem com dificuldades financeiras.
Impactos vão além das contas domésticas
Os efeitos do endividamento não ficam restritos às famílias. Segundo o especialista, a redução do poder de compra acaba atingindo diversos setores da economia.
“Se você está com dívidas e não sobra dinheiro para consumir, deixa de comprar algumas coisas. O supermercado vende menos, o comércio vende menos, e isso vai gerando um efeito dominó em toda a cadeia produtiva.”
Ele explicou que o sistema econômico funciona de forma integrada e que a diminuição do consumo afeta diretamente empresas, empregos e investimentos.
“Quando um setor da economia é afetado, toda a cadeia ligada a ele também sofre impactos. O Brasil precisa produzir cada vez mais para continuar crescendo.”
Educação financeira aparece como desafio permanente
Ao comentar programas de renegociação de dívidas lançados pelo governo federal nos últimos anos, Gean afirmou que medidas emergenciais podem aliviar problemas imediatos, mas não resolvem as causas do endividamento.
“O problema, de fato, é a educação financeira. Se a pessoa limpa o nome, mas continua sem planejamento, nada impede que volte a se endividar.”
Para ele, iniciativas voltadas à formação financeira desde os primeiros anos escolares poderiam gerar resultados mais duradouros.
“Se queremos melhorar a saúde financeira dos brasileiros, precisamos investir em educação financeira desde cedo. Resolver apenas depois que o problema aparece não tem produzido resultados permanentes.”
Perspectivas para os próximos anos
Questionado sobre as projeções para o cenário econômico, o economista demonstrou preocupação com os próximos períodos, caso não ocorram mudanças estruturais.
“Se tudo continuar da forma como está, esse problema está apenas sendo empurrado para frente. Ele pode aparecer com mais força nos próximos anos, principalmente por meio da inflação e das taxas de juros.”
O especialista alertou que juros elevados combinados com inflação continuam sendo fatores capazes de pressionar tanto o orçamento das famílias quanto o desempenho da economia nacional.
Enquanto os índices de endividamento seguem em níveis recordes, especialistas defendem que planejamento financeiro, controle dos gastos e formação de reservas de emergência continuam sendo ferramentas fundamentais para evitar que pequenas dificuldades se transformem em dívidas de longo prazo.




