Goianésia - Os Estados Unidos avançam na etapa final de uma investigação comercial que poderá resultar na aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros exportados ao mercado norte-americano. Entre as justificativas apresentadas pelo governo dos EUA estão o sistema de pagamentos Pix, o combate à corrupção, a pirataria, a proteção da propriedade intelectual, a segurança jurídica e ações de enfrentamento ao crime organizado. Caso a medida seja confirmada, setores estratégicos da economia brasileira poderão ser afetados, ampliando as tensões comerciais entre os dois países.
Em entrevista à RVC FM, o cientista político e professor do Centro Universitário Evangélico de Goianésia (Uniego), Thiago Steckelberg, avaliou que, embora os argumentos apresentados tenham fundamentação técnica, a iniciativa também representa um instrumento de pressão política nas negociações internacionais.
Tarifas como mecanismo de negociação
Segundo o especialista, a política comercial adotada pelos Estados Unidos utiliza o peso econômico do país como ferramenta para ampliar seu poder de negociação no cenário internacional.
"O governo Trump é muito combativo. Na economia, recorre ao seu principal trunfo, que é a dependência que muitos países têm do comércio com os Estados Unidos. As tarifas são utilizadas como instrumento de pressão. Os argumentos técnicos servem como base de negociação, mas a questão principal é política", afirmou Thiago Steckelberg.
Para o cientista político, negociar tarifas faz parte da soberania de qualquer país. No entanto, quando medidas comerciais passam a ser utilizadas para influenciar decisões internas de outras nações, elas podem representar uma forma de pressão indireta.
"Quando os Estados Unidos utilizam a relação comercial para pressionar uma situação política, podemos considerar isso uma interferência, ainda que indireta."
Pix entre os principais argumentos
Um dos pontos que mais chamou atenção na investigação norte-americana foi a inclusão do Pix entre os fatores analisados. De acordo com Steckelberg, o sistema brasileiro reduziu significativamente a participação das operadoras internacionais de cartões de crédito nas transações financeiras realizadas no país.
"O Pix gera prejuízos para empresas financeiras norte-americanas, como as bandeiras de cartão. O sistema brasileiro funciona muito bem e se tornou um concorrente importante. Isso, por si só, não justifica uma medida comercial dessa natureza."
Na avaliação do professor, o interesse dos Estados Unidos seria reduzir a vantagem competitiva do sistema brasileiro e fortalecer a atuação das empresas de meios de pagamento no mercado nacional.
"O objetivo é tornar o Pix menos vantajoso e deixar as bandeiras norte-americanas mais competitivas no mercado brasileiro."
Alegações vão além da economia
A investigação também faz referências ao combate à corrupção, à pirataria, à proteção da propriedade intelectual e à segurança jurídica no Brasil.
Para Thiago Steckelberg, esses temas extrapolam a esfera econômica e alcançam aspectos ligados à política interna e à soberania nacional.
"São questões ligadas à soberania nacional. Quando decisões internas passam a ser utilizadas como argumento em uma negociação comercial, elas acabam repercutindo diretamente nas relações internacionais."
Brasil tenta evitar novas tarifas
O especialista explicou que o governo brasileiro participa das audiências promovidas pelas autoridades comerciais norte-americanas por meio do Ministério das Relações Exteriores, defendendo os interesses do país.
Segundo ele, empresas dos próprios Estados Unidos também podem se posicionar contra a adoção das tarifas, já que dependem de matérias-primas brasileiras para manter suas cadeias produtivas.
"O Itamaraty tem mostrado que essa medida também prejudica empresas norte-americanas. Há um efeito bumerangue: haverá impacto no Brasil, mas também sobre setores da economia dos Estados Unidos que utilizam produtos brasileiros."
Possíveis impactos para o Brasil
Na avaliação de Steckelberg, caso a tarifa adicional seja implementada, diversos segmentos da economia brasileira poderão sofrer impactos, especialmente os ligados à exportação de commodities.
Entre os setores mais vulneráveis estão mineração, açúcar, madeira e etanol, produtos frequentemente relacionados às questões ambientais mencionadas na investigação.
"Produtos como açúcar, minérios, madeira e etanol tendem a ser os mais afetados. Curiosamente, o café ficou fora da lista, justamente por ser um produto muito valorizado pelo consumidor norte-americano."
O professor também destacou que estados exportadores, como Goiás, podem sentir reflexos diretos caso haja redução nas vendas ao mercado norte-americano, com impactos sobre a geração de renda, empregos e a atividade econômica vinculada ao comércio exterior.




