Goianésia-A divulgação da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg reacendeu o debate político sobre os impactos do noticiário nas intenções de voto para a eleição presidencial de 2026. O levantamento foi realizado em meio à repercussão de denúncias envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e apontou mudanças no cenário eleitoral.
De acordo com os dados divulgados, Flávio Bolsonaro apresentou queda nas simulações de primeiro turno após a divulgação de áudios e mensagens relacionados ao caso Banco Master. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve estabilidade nas intenções de voto e ampliou vantagem nas projeções de segundo turno.
O doutor em Ciências Políticas, Leandro Rodrigues, afirma que a inclusão de conteúdos relacionados ao escândalo dentro da pesquisa pode influenciar a percepção dos eleitores durante o questionário.
“Do ponto de vista de uma metodologia rigorosa, incluir informações específicas sobre o caso Banco Master não é mera contextualização neutra. Trata-se de um estímulo narrativo ativo, que transforma o questionário em um ambiente híbrido de medição e ativação perceptiva do eleitor”, explicou.
Segundo o especialista, conceitos como “priming” e “framing”, estudados pela ciência política, ajudam a entender como determinadas informações podem impactar a avaliação dos entrevistados sobre candidatos e temas políticos.
“O priming funciona como um efeito de lembrança. Ao ouvir o áudio de um escândalo, o eleitor passa a julgar o político principalmente por aquele critério. Já o framing é a forma como a história é apresentada, destacando determinados aspectos e minimizando outros”, afirmou.
Leandro Rodrigues também avaliou que os números da pesquisa apontam mais para uma reorganização interna do eleitorado conservador do que para uma migração significativa de votos para a esquerda.
“O que vemos é uma dispersão dentro do próprio campo conservador. Parte do eleitorado migrou para outros nomes ou recuou para a indecisão. Esse comportamento costuma ocorrer, principalmente, entre eleitores menos consolidados ideologicamente e mais sensíveis a notícias negativas recentes”, disse.
A pesquisa também indicou que a maior parte dos entrevistados já tinha conhecimento das denúncias envolvendo os áudios atribuídos a Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Enquanto uma parcela dos eleitores interpretou o episódio como sinal de proximidade política e financeira, outros avaliaram que se tratava apenas de negociações privadas relacionadas ao financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Outro ponto levantado pelo cientista político foi a ausência, segundo ele, de estímulos negativos semelhantes relacionados ao governo federal dentro do questionário.
“A estabilidade dos índices de Lula, enquanto a oposição oscila, indica que o governo opera próximo do seu teto de apoio. Mas também existe uma assimetria no questionário, porque houve estímulo negativo forte contra a oposição sem algo equivalente envolvendo o governo”, avaliou.
A pesquisa também passou a ser questionada judicialmente. A equipe de Flávio Bolsonaro acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contestando a metodologia utilizada pela AtlasIntel. O principal argumento é que o instituto teria exibido aos entrevistados o áudio relacionado ao caso Banco Master durante a aplicação do questionário.
A AtlasIntel afirma que o conteúdo foi apresentado apenas após o encerramento das perguntas eleitorais, sem interferência direta nos resultados.
Para Leandro Rodrigues, o modelo digital utilizado pela empresa tem vantagens na rapidez de captação das oscilações políticas, mas também enfrenta desafios metodológicos.
“O formato digital reduz constrangimentos comuns em entrevistas presenciais e acompanha rapidamente o ambiente das redes sociais. Por outro lado, tende a alcançar pessoas mais conectadas e politicamente engajadas, o que pode ampliar efeitos de polarização e tornar os questionários mais suscetíveis a estímulos narrativos”, concluiu.
Nos bastidores políticos, aliados e adversários acompanham os desdobramentos da pesquisa e tentam medir se o desgaste envolvendo nomes da direita terá efeitos duradouros ou apenas temporários na disputa presidencial de 2026.




