Ferramentas digitais transformam a rotina escolar e levantam questionamentos sobre os impactos no aprendizado

Goianésia- O avanço das ferramentas de inteligência artificial tem provocado mudanças significativas na forma como estudantes pesquisam conteúdos, realizam atividades e organizam os estudos. Cada vez mais presentes no ambiente educacional, essas tecnologias oferecem respostas instantâneas, auxiliam na produção de textos e facilitam o acesso à informação. Ao mesmo tempo, especialistas alertam para os impactos que o uso inadequado pode causar no desenvolvimento das habilidades cognitivas e do pensamento crítico.

Para o professor Carlos Ambrósio, a principal preocupação está relacionada à dependência crescente dos alunos em relação às plataformas de inteligência artificial.

"Nós chegamos num momento em que a inteligência artificial está resolvendo os problemas para os alunos, só que, às vezes, chega a hora da prova e ele não tem acesso a ela e fica sem saber como resolver. E aí nós temos um problema. Nós estamos delegando, nós estamos terceirizando a capacidade de pensamento, de construção de raciocínio, de argumentação e até mesmo de defesa de pontos de vista pessoais."

A popularização da inteligência artificial generativa ampliou o acesso a conteúdos em poucos segundos. No entanto, a facilidade para obter respostas prontas não garante a compreensão dos temas abordados nem a construção efetiva do conhecimento.

Segundo Carlos Ambrósio, é preciso compreender os limites dessas ferramentas e analisar criticamente as informações apresentadas.

"A inteligência artificial te dá uma série de informações precisas, rápidas e, às vezes, encantadoras. Só que tem um porém. Isso são dados, são informações. Ela não está gerando conhecimento. Ela está apenas trabalhando os dados que são inseridos ali."

O professor chama atenção para outro aspecto que exige cautela: a qualidade e a confiabilidade dos dados utilizados pelos sistemas de inteligência artificial.

"Será que esses dados são reais? Será que esses dados estão devidamente organizados para atender aquilo que nós precisamos? Ou esses dados estão ali com um viés, às vezes político e, às vezes, até racial?"

Embora a inteligência artificial seja frequentemente associada à inovação e à eficiência, pesquisadores e especialistas apontam que os sistemas ainda apresentam limitações que podem reproduzir erros e preconceitos presentes nos bancos de dados utilizados para o treinamento dos algoritmos.

Carlos Ambrósio cita casos que evidenciam esses desafios.

"Existem inteligências artificiais que não conseguem reconhecer pessoas negras. Outra foi barrada por não conseguir reconhecer asiáticos. Então, a inteligência artificial tem esse lado negativo."

Ao mesmo tempo, ele reconhece que a tecnologia oferece recursos valiosos para estudantes, pesquisadores e profissionais de diversas áreas.

"Ela também é positiva, porque nos dá muitas informações, tabelas, gráficos e estudos específicos. Às vezes rasos, mas a gente pode pedir para aprofundar."

O debate sobre o uso da inteligência artificial na educação tem levado especialistas a diferenciar o acesso à informação da construção do conhecimento. Embora a tecnologia facilite pesquisas e consultas, o aprendizado depende de processos como interpretação, análise, reflexão e aplicação prática dos conteúdos.

Para Carlos Ambrósio, o uso consciente da ferramenta passa pelo protagonismo do próprio estudante.

"Nós precisamos saber usar a inteligência artificial. Então, é disciplina, é cuidado, nós sermos os protagonistas do nosso processo de ensino e aprendizagem e não simplesmente delegar à inteligência artificial."

O professor relata que essa mudança já pode ser observada na rotina escolar.

"Os alunos levam o dever para casa e retornam com ele feito perfeitamente. Mas, quando você pede para eles fazerem em sala, eles têm dificuldade."

Ambrósio também citou reflexões desenvolvidas no meio acadêmico sobre os impactos das novas tecnologias na educação. Segundo ele, a discussão não deve se concentrar apenas em ser favorável ou contrário ao uso da inteligência artificial, mas nos efeitos concretos que ela produz sobre o comportamento e o aprendizado.

"O que deve orientar a decisão de usar ou não a inteligência artificial não são argumentos contra ou a favor das tecnologias, mas sim os efeitos que elas produzem. As pessoas estão mais dispostas ou mais preguiçosas? As pessoas estão estudando mais ou apenas colocam a IA para fazer e deixam de estudar?".