Produtor inicia a jornada antes do amanhecer para garantir a ordenha diária e a saúde do rebanho.

Goianésia - A produção leiteira é uma das atividades mais tradicionais da agricultura familiar brasileira, mas também uma das que exigem maior dedicação. Sem finais de semana, feriados ou períodos de descanso, milhares de produtores mantêm uma rotina intensa para assegurar a saúde dos animais, a continuidade da produção e o sustento de suas famílias. Apesar da importância do setor para o abastecimento alimentar, os desafios econômicos ainda são uma realidade constante para quem vive da atividade.

No Sítio Boi no Laço, localizado no Assentamento Nova Aurora, em Santa Isabel, o produtor rural Dário Pereira inicia o trabalho ainda durante a madrugada. A ordenha diária é indispensável para evitar prejuízos à produção e problemas sanitários no rebanho, como a mastite bovina.

Rotina no campo

Segundo Dário Pereira, a rotina tem início antes do amanhecer. Após um rápido café, o trabalho segue diretamente para o curral. “O dia nosso aqui começa bem cedo. Às cinco horas da manhã já estamos de pé. Tomamos um café e vamos para o curral tirar o leite. Ainda fazemos a ordenha no sistema tradicional, manualmente, produzindo entre 100 e 120 litros por dia”, afirma.

Após a retirada do leite, as atividades continuam com os demais cuidados da propriedade. “Quando terminamos a ordenha, tratamos dos porcos e levamos o leite até o tanque de armazenamento”, explica. O produtor destaca que a atividade praticamente não permite pausas ao longo do ano.

Trabalho diário

Dário ressalta que a interrupção da ordenha pode causar sérios prejuízos à saúde dos animais. “Só deixamos de tirar leite em situações muito específicas, como na Sexta-Feira da Paixão e, às vezes, no Natal. Nos demais dias, estamos sempre no curral, porque, se deixar de ordenhar, aumenta o risco de mastite”, relata. Apesar do esforço constante, ele considera a atividade gratificante. “É um trabalho árduo, mas agradeço a Deus pela saúde para continuar produzindo e ajudando a fortalecer a agricultura familiar”, acrescenta.

Preço do leite

Embora os derivados lácteos apresentem preços elevados para os consumidores, a realidade no campo é diferente. O valor recebido pelo produtor por litro de leite permanece reduzido diante dos custos e do trabalho envolvidos. Dário explica que a diferença entre o preço pago na propriedade e o valor encontrado nos supermercados é significativa.

“Muitas pessoas não sabem que o produtor entrega o leite para receber entre R$ 2 e R$ 2,50 por litro. Em alguns períodos, esse valor chega a R$ 1,70. Enquanto isso, o leite chega às prateleiras custando entre R$ 6 e R$ 8”, afirma. Segundo ele, dificilmente o valor pago ao agricultor ultrapassa os R$ 3 por litro.

“Muitas vezes, quem mora na cidade não sabe que o produtor vende o leite por um preço acessível. Ao longo do processo, as empresas agregam valor, e o produto acaba chegando mais caro ao supermercado”, observa. A situação, segundo ele, dificulta a sustentabilidade financeira da atividade e exige que as famílias busquem novas formas de aumentar a rentabilidade.

Valor agregado

Como alternativa aos baixos preços pagos pelo leite in natura, Dário Pereira e a esposa, Ivonilde Pereira, passaram a investir na fabricação artesanal de derivados lácteos. Além de fornecer parte da produção ao tanque comunitário, o casal transforma uma parcela da matéria-prima em produtos comercializados diretamente aos consumidores.

“A gente produz requeijão caseiro, queijo fresco, queijo curado na tábua e doce de leite. Retiramos uma parte da produção para fabricar esses produtos”, explica. De acordo com o produtor, a estratégia varia conforme o comportamento do mercado. “Quando o preço do leite está mais alto, produzimos menos derivados. Quando o valor cai, aumentamos a fabricação para agregar mais valor à matéria-prima”, relata.

Venda direta

A comercialização direta tem contribuído para fortalecer a renda da família e ampliar a relação com os consumidores. “Fazemos entregas todas as quartas-feiras em Goianésia e, graças a Deus, contamos com uma clientela fiel”, destaca Dário. A iniciativa permite que produtos frescos, produzidos de forma artesanal e com características tradicionais da culinária rural, cheguem diretamente às mesas dos consumidores.