Encontro reuniu relatos de vítimas e análises técnicas sobre o acidente

Goianésia-Quase quatro décadas após o acidente radiológico com o Césio 137, considerado o maior já registrado fora de uma usina nuclear, o tema voltou ao centro das discussões nesta segunda-feira (11), durante a segunda mesa redonda promovida pelo Centro Universitário de Goianésia (UNIEGO). O encontro reuniu vítimas da tragédia, profissionais da saúde, pesquisadores e estudantes para debater os impactos sociais, humanos e científicos provocados pelo episódio ocorrido em Goiânia, em 1987.

Durante entrevista exclusiva para RVC FM,Odesson Ferreira, irmão de Devair Ferreira, proprietário do ferro-velho onde a cápsula foi aberta, relatou que as consequências do acidente permanecem presentes até hoje na vida das vítimas e familiares.

“A família toda foi envolvida. Foram mais de 40 membros da nossa família envolvidos naquele acidente. É sinistro, porque acidente é aquilo que a gente não prevê. Aquela cápsula ficou abandonada em uma sala, sem porta nem janela. Os rapazes encontraram e venderam para o Devair, que trabalhava com recicláveis. Infelizmente, minha família toda foi envolvida”, afirmou.

Ele também descreveu os impactos físicos, emocionais e financeiros enfrentados desde então.

“Aqueles que não foram contaminados, como eu, que tive lesões, também foram irradiados. Desde então, muita coisa aconteceu. Pessoas morreram, como a Leide, minha sobrinha, o Ivo, meu irmão Devair, a Maria, esposa dele. Muitas pessoas vieram tendo problemas ao longo do tempo”, disse.

Segundo Odesson, as consequências sociais provocadas pela tragédia ainda são sentidas pelas vítimas sobreviventes.

“O lado social foi o que mais sofreu. Tudo na vida dessas pessoas mudou. Eu era caminhoneiro, deixei de fazer aquilo que mais gostava na vida. A gente passa por maus momentos até hoje, psicologicamente e financeiramente”, relatou.

Livro vai relatar bastidores do acidente

Durante a entrevista, Odesson Ferreira afirmou que trabalha na produção de um livro sobre o acidente radiológico, trazendo relatos de quem vivenciou o episódio dentro da área contaminada.

“Eu nunca quis que isso caísse no esquecimento da população. Só assim as pessoas vão se prevenir e ter mais cuidado com coisas perigosas. Por isso, sempre trabalhei para que esse tema nunca fosse esquecido”, afirmou.

Ele criticou produções e conteúdos que, segundo ele, deixam de apresentar a perspectiva das vítimas.

“Às vezes, floreiam muito aquilo que aconteceu, mostrando apenas um lado e esquecendo o lado das vítimas. São elas que sofreram e continuam sofrendo. Estou escrevendo justamente para contar aquilo que eu vi lá dentro do acidente com o Césio 137”, declarou.

Também presente no debate, o ex-secretário estadual da Saúde, Antônio Faleiros, relembrou episódios marcantes vividos durante o período da contaminação em Goiânia. Segundo ele, um dos momentos mais traumáticos ocorreu durante o sepultamento de Leide das Neves, uma das vítimas mais conhecidas do acidente.

“O que mais me chamou atenção foi o problema emocional que tivemos no enterro da menina Leide das Neves. O caixão veio todo recoberto de chumbo, sem nenhum risco de contaminação, e mesmo assim fomos agredidos com tijolos e pedras”, afirmou.

Faleiros disse que o episódio marcou profundamente a condução do caso à época.

“Eu nunca vi, na história da humanidade, um movimento contrário ao sepultamento de um cadáver. Isso me marcou muito”, comentou.

Ele também relembrou os impactos econômicos e estruturais provocados pelo acidente em Goiás.

“A economia do estado praticamente se inviabilizou naquele momento. Os produtos de Goiás não eram aceitos no restante do Brasil, e o governo precisou deslocar recursos para enfrentar toda a situação”, disse.

Comunidade acadêmica debate responsabilidade e informação científica

Durante o encontro, o reitor do Centro Universitário de Goianésia (UNIEGO), José Mateus, afirmou que a tragédia deixou como principal aprendizado a necessidade de responsabilidade no cumprimento de protocolos técnicos e profissionais.

“O legado é de responsabilidade em todo o campo profissional, onde os cuidados e os protocolos precisam ser seguidos de forma rigorosa, para que não tenhamos acidentes de grande monta, como foi o caso do Césio 137”, declarou.

O físico e engenheiro civil Eduardo Toledo, que atua na instituição, afirmou que a falta de informação teve papel decisivo na propagação da contaminação.

“Foi um acidente que teve grande impacto por conta da falta de informação da população e também por falhas sucessivas das autoridades envolvidas. Aquele pó foi manipulado e repassado para familiares, amigos e vizinhos sem que as pessoas soubessem do risco”, explicou.

Segundo ele, atualmente existem equipamentos mais avançados para identificação de materiais radioativos, o que facilita a resposta em situações semelhantes.

“Hoje, nós temos instrumentos capazes de identificar o nível da radiação e também qual elemento químico é responsável por ela. Isso permite diretrizes mais assertivas no tratamento e na condução da situação”, afirmou.

A presidente da Liga Acadêmica de Diagnóstico Bucal, Odontologia Hospitalar e Pacientes com Necessidades Especiais, responsável pelo evento, Michelle Cabral França, afirmou que o debate promovido pela instituição busca ampliar o acesso à informação e evitar distorções históricas sobre o acidente radiológico.

“Discutir esse tema faz a gente combater desinformações, trazer memórias e ajudar a formar profissionais mais conscientes e mais humanos”, concluiu.