Apenas quatro dos 703 acolhimentos registrados nos últimos dois anos ocorreram por meio de famílias acolhedoras na capital goiana.

Goianésia - O acolhimento familiar, modalidade considerada uma das alternativas mais humanizadas para crianças e adolescentes afastados do convívio familiar por determinação judicial, ainda possui participação reduzida em Goiânia. Dados levantados pelo Jornal Opção mostram que, nos últimos dois anos, apenas quatro dos 703 acolhimentos realizados na capital ocorreram por meio de famílias acolhedoras.

Quando uma criança ou adolescente é vítima de violência, negligência, abandono ou outra situação de vulnerabilidade que impossibilite sua permanência junto à família de origem, a legislação prevê o encaminhamento para serviços de acolhimento. Nesses casos, quando não há familiares aptos a assumir os cuidados, a proteção pode ocorrer em instituições especializadas ou em residências previamente cadastradas e acompanhadas pelo poder público.

Apesar de ser uma política prevista pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o acolhimento familiar representa uma parcela reduzida dos atendimentos realizados em Goiânia. Atualmente, a maior parte dos casos é direcionada para unidades de acolhimento institucional.

A capital conta com seis abrigos administrados por organizações da sociedade civil (OSCs) e uma unidade pública. Segundo os dados, 56% dos acolhimentos ocorreram no Complexo 24 Horas, administrado pelo município. Outros 39% foram distribuídos entre instituições conveniadas, enquanto apenas 5% foram destinados ao serviço de família acolhedora.

Entre as entidades em funcionamento, o Instituto Radicais Kids registrou o maior número de acolhimentos, com 145 crianças e adolescentes atendidos nos últimos dois anos. Na sequência, aparecem a Associação Brazilian Kids, com 84 acolhimentos; o Lar Mãe Zeferina, com 22; e a Associação Santa Teresinha do Menino Jesus, com 16. Duas instituições conveniadas passam atualmente por reformas.

Fiscalização é realizada de forma permanente

Em entrevista ao Jornal Opção, o juiz da Vara da Infância e da Juventude de Goiânia, Fernando César, explicou que a definição do local de acolhimento leva em consideração o perfil de cada criança ou adolescente, uma vez que as instituições possuem características específicas relacionadas à faixa etária e ao público atendido.

Segundo o magistrado, além das inspeções obrigatórias realizadas semestralmente, as equipes técnicas acompanham continuamente a rotina das unidades.

“Temos equipes interprofissionais que realizam o acompanhamento e a fiscalização obrigatória. Além disso, o contato é constante, com elaboração de relatórios, entrevistas e monitoramento da situação de cada criança acolhida”, afirmou.

Estrutura e localização são desafios

Entre os principais obstáculos enfrentados pelos serviços de acolhimento, Fernando César destacou questões estruturais e logísticas. Para ele, a ampliação dos espaços e uma melhor distribuição das unidades pela cidade poderiam contribuir para a autonomia dos adolescentes atendidos.

“O ideal seria que as instituições estivessem mais próximas das escolas e dos locais de convivência social, permitindo que esses jovens tivessem uma rotina mais próxima da realidade da comunidade”, observou.

Recursos públicos financiam atendimento

Dados da Prefeitura de Goiânia apontam que o Lar Mãe Zeferina recebeu R$ 264 mil em repasses municipais ao longo dos últimos dois anos. No período, a entidade acolheu 22 crianças e adolescentes.

A Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos informou ainda que os investimentos em serviços de alta complexidade destinados à proteção de crianças e adolescentes somaram R$ 458.531. O valor contempla diferentes modalidades de atendimento social, incluindo o acolhimento institucional.

O Governo de Goiás informou que os municípios são responsáveis pela execução dos serviços de acolhimento, enquanto o Estado atua por meio de capacitação, apoio técnico, monitoramento e cofinanciamento das políticas públicas. Em 2025, Goiânia recebeu R$ 6 milhões por meio do Cofinanciamento Estadual. Já em 2026, o Estado destinou R$ 30 milhões aos municípios goianos dentro do programa.

A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds) destacou ainda que Goiânia possui parceria com o Programa Família Acolhedora Goiana, iniciativa que auxilia no pagamento de bolsas às famílias participantes e oferece suporte técnico para a execução do serviço.

No âmbito federal, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome informou que o cofinanciamento destinado aos serviços de alta complexidade na capital goiana alcançou R$ 227,8 mil entre janeiro e dezembro de 2025.

Modalidade busca oferecer ambiente mais próximo do convívio familiar

Especialistas da área da infância e adolescência apontam que o acolhimento familiar tende a proporcionar um ambiente mais próximo da convivência doméstica, favorecendo o desenvolvimento emocional e social das crianças durante o período de proteção. No entanto, a ampliação do serviço depende da adesão de novas famílias, da estruturação das equipes técnicas e do fortalecimento das políticas públicas voltadas ao setor.