Transtorno afeta rotina, relacionamentos e capacidade funcional

Goianésia-A saúde mental tem ganhado cada vez mais espaço nas discussões públicas, impulsionada pelo aumento dos casos de transtornos psicológicos e pelos impactos que eles provocam na vida cotidiana. Entre as condições que mais preocupam especialistas está a depressão, considerada uma das principais causas de afastamento do trabalho e de prejuízos à qualidade de vida. Apesar da ampla divulgação do tema, ainda existem dúvidas, preconceitos e dificuldades para identificar os sinais da doença.

Em entrevista exclusiva à RVC FM, a psicóloga e neuropsicóloga Júlia Penna explicou que a depressão não deve ser confundida com momentos de tristeza, emoção comum diante de perdas, frustrações ou situações difíceis.

“A tristeza é um sentimento natural e passageiro, que a gente normalmente sente por algum motivo específico, ou uma frustração, ou uma perda. E já a depressão gera sintomas mais graves, maior quantidade de sintomas, e ela dura mais tempo. Ela não é uma coisa mais provisória. Ela dura por mais tempo e começa a afetar a capacidade da pessoa de funcionar na vida, no trabalho, na escola”, afirmou.

Segundo a especialista, a condição está entre os transtornos mentais que mais comprometem a autonomia das pessoas, interferindo não apenas na vida profissional, mas também nas atividades mais simples do dia a dia.

“Ela, junto com a ansiedade, é um dos transtornos mentais mais incapacitantes, que mais levam a afastamento do trabalho. Não só na parte profissional, mas também na parte pessoal, da pessoa às vezes não conseguir fazer funções básicas, cuidar da família, funcionar mesmo, tomar banho, se cuidar”, disse.

Crianças e adolescentes também podem desenvolver depressão

Embora muitas pessoas associem a doença apenas aos adultos, a psicóloga lembra que crianças e adolescentes também podem apresentar o transtorno. Nesses casos, os sinais costumam ser diferentes e podem dificultar a identificação por familiares e educadores.

“Nas crianças e adolescentes, às vezes esse sintoma vai vir como agressividade, como explosões de raiva, como choros frequentes, como dores que não têm nenhuma causa médica, às vezes dor de cabeça, dor de barriga, náusea”, explicou.

Ela observa que o diagnóstico não é feito a partir de um sintoma isolado, mas da análise de um conjunto de comportamentos e manifestações clínicas. “Às vezes a pessoa está só com uma dor de barriga ou dor de cabeça, não quer dizer que é depressão. Tem que ser um conjunto de sintomas. Isso vai ser avaliado pelo psicólogo ou psiquiatra para poder saber se é depressão ou não.”

Outro aspecto abordado durante a entrevista foi a dificuldade de reconhecer o problema em pessoas que continuam mantendo a rotina aparentemente normal. De acordo com Júlia Penna, quadros mais leves podem permanecer ocultos por muito tempo.

“A pessoa consegue trabalhar, consegue fazer as funções básicas, consegue cuidar da casa, da família. Então, às vezes, as outras pessoas não percebem. Se ela não expressa muito os sentimentos e os sintomas que está tendo, pode ser que as pessoas não percebam.”

A psicóloga também chamou atenção para o papel das redes sociais, que frequentemente mostram apenas momentos positivos da vida, escondendo dificuldades emocionais enfrentadas longe das telas. “Às vezes, uma pessoa pode estar vivendo sofrimentos intensos e não está demonstrando.”

Preconceitos dificultam a busca por ajuda

A permanência de conceitos equivocados sobre a doença continua sendo um dos obstáculos para o diagnóstico precoce. Comentários que classificam a depressão como falta de força de vontade ou exagero acabam contribuindo para o sofrimento silencioso de muitas pessoas.

“Um dos mitos é que depressão é frescura ou fraqueza. E, na verdade, não é. Depressão é uma doença mental que altera a química do cérebro, altera os neurotransmissores, e isso afeta a motivação, o sono, a energia e toda a capacidade funcional da pessoa”, afirmou.

Ela também destacou que a condição pode atingir qualquer indivíduo, independentemente da condição financeira, profissão ou estrutura familiar. “A depressão pode atingir qualquer pessoa, independentemente da situação financeira, da situação profissional e dos relacionamentos.”

Tratamento combina acompanhamento psicológico e médico

O tratamento varia conforme a intensidade dos sintomas e a evolução do quadro clínico. Em muitos casos, o acompanhamento psicológico é o primeiro passo para a recuperação.

“O que a gente mais utiliza é a psicoterapia e o medicamento. A psicoterapia com o psicólogo e o medicamento com o psiquiatra, que vai fazer o diagnóstico e acompanhar essa pessoa até a melhora”, explicou.

Segundo a profissional, nem todos os pacientes precisam iniciar o tratamento com medicamentos. A necessidade é avaliada de acordo com a gravidade dos sintomas e a resposta à terapia.

“Normalmente, a gente começa com a psicoterapia, porque, se for uma depressão mais leve, não necessariamente vai precisar do remédio. Mas, se for uma depressão mais moderada ou grave, aí precisa do auxílio do psiquiatra também.”

Procurar ajuda o quanto antes faz diferença

Ao final da entrevista, Júlia Penna destacou que esperar os sintomas se agravarem pode tornar a recuperação mais difícil. Ela orienta que as pessoas observem mudanças persistentes no humor, na disposição e nos hábitos cotidianos.

“Não ficar esperando para procurar uma forma de lidar com isso para melhorar. A depressão pode ir se agravando e, depois que ela já ficou mais grave, sair dela fica muito mais difícil.”

Para familiares e amigos, a recomendação é compreender que a depressão é uma doença tratável e oferecer apoio sem julgamentos.

“Eu gostaria que todo mundo soubesse que a depressão é uma doença mental e que ela tem tratamento. Hoje em dia, a gente tem muita opção de tratamento. Então, não ficar perdendo tempo, já procurar um tratamento para poder melhorar e viver melhor.”