Goianésia-A discussão sobre mobilidade urbana tem ganhado espaço entre gestores públicos, pesquisadores e instituições que buscam alternativas para tornar as cidades mais acessíveis e seguras. Em Goiás, uma iniciativa desenvolvida a partir de estudos sobre o deslocamento de estudantes foi selecionada para integrar a programação do 10º Fórum Goiano de Mobilidade Urbana, que acontece entre os dias 30 de junho e 1º de julho, em Goiânia.
O projeto "Trilha Estudantil: Mobilidade Ativa para a Promoção da Saúde, Segurança e Cidadania na Rede Escolar do Estado de Goiás" foi idealizado pelo professor goianesiense Júnior Maradona e propõe a criação de rotas seguras para que alunos possam se deslocar entre casa e escola utilizando meios não motorizados.
Durante entrevista exclusiva à RVC FM, Júnior Maradona, profissional da educação física e autor do projeto, explicou que os primeiros estudos começaram ainda em 2014, quando o município discutia a implantação de ciclovias.
“Depois daquela brincadeira das conversas da ciclovia, nós continuamos os estudos. Foi minha dissertação de mestrado, pesquisa patrocinada pela Fapeg, e passamos a investigar o que estava acontecendo com essas crianças que não estão indo mais para a escola de forma independente, sempre utilizando ônibus ou sendo levadas pelos pais."
Segundo ele, a pesquisa ampliou o foco inicial e passou a analisar os impactos desse comportamento no trânsito e na saúde dos estudantes. O levantamento identificou um aumento da concentração de veículos nos horários de entrada e saída das escolas. "Dentro desse estudo, nós entendemos que as portas das escolas, nos momentos de pico, estão ficando intransitáveis."
Saúde e mobilidade
A investigação envolveu estudantes do ensino fundamental e médio, avaliando hábitos de deslocamento e possíveis reflexos no bem-estar físico. "A formatação do projeto veio, inicialmente, da preocupação com a saúde. Nós fomos às escolas para verificar como os alunos do sexto ano até o terceiro ano do ensino médio estavam realizando esse deslocamento."
O professor relatou que a análise apontou uma redução significativa das atividades físicas cotidianas realizadas pelos jovens. "Se eles fizerem esse trajeto a pé, de bicicleta, skate ou qualquer outro formato que exija movimentação, nós vamos melhorar essa parte da saúde deles. Eles já estarão realizando uma atividade física na ida e na volta da escola."
De acordo com ele, o crescimento do tempo dedicado às telas também foi considerado durante a elaboração da proposta. "Hoje nós sabemos que as crianças estão em um período de mais celular do que atividade."
Além dos estudantes, a pesquisa ouviu famílias para compreender os motivos que levam muitos responsáveis a optar pelo transporte individual. "Nós fomos entrevistar os pais. Perguntamos por que eles não deixam os filhos irem para a escola. As respostas envolviam problemas de trânsito, sinalização inadequada e dificuldades relacionadas às calçadas."
As entrevistas também revelaram demandas ligadas à infraestrutura urbana, como arborização e adequação dos espaços destinados aos pedestres. "Mesmo sendo uma cidade arborizada, ainda existe necessidade de melhoria desses corredores para proporcionar um deslocamento melhor e mais confortável."
Uma das principais ações previstas é a implantação de percursos monitorados em um raio de até três quilômetros das unidades escolares. "O que nós estamos trazendo é um formato de corredores de até três quilômetros de distância entre a escola e a residência dos alunos para que eles voltem a ter essa mobilidade com segurança."
A proposta prevê intervenções em diferentes pontos da cidade, incluindo melhorias em calçadas, sinalização viária e organização dos trajetos utilizados pelos estudantes. "Temos que melhorar as calçadas, melhorar a sinalização em alguns locais e estruturar esses caminhos para que os pais voltem a confiar nesse deslocamento."
Segundo o pesquisador, modelos semelhantes já funcionam em outros países. "Em Nova York existe esse formato. Há pessoas vinculadas às escolas que fazem o acompanhamento do percurso, passando e reunindo os estudantes ao longo do trajeto."
Durante os estudos desenvolvidos em parceria com órgãos municipais, foi identificada a possibilidade de implantação de uma rota piloto em Goianésia. "Nós vimos que esse primeiro corredor pode ser formatado do Feirão Nova Aurora até as escolas Carrilho e Presidente Kennedy."
A análise contou com a participação da Superintendência Municipal de Trânsito (SMT) e também da Secretaria Municipal de Educação. Entre os benefícios avaliados estão melhorias na circulação urbana e possíveis reflexos sobre os custos do transporte escolar.
"O secretário Noé achou muito interessante a proposta e observou que, à medida que esses corredores forem implantados, pode haver até redução de despesas com transporte escolar."
A iniciativa chegou à programação do Fórum Goiano de Mobilidade Urbana após conquistar destaque no programa Embaixadores da Cidadania. "Fomos premiados como a segunda melhor ação estadual na área da saúde relacionada à mobilidade ativa e à segurança no trânsito."
Júnior Maradona contou que representantes ligados às áreas de saúde e trânsito conheceram o trabalho durante a premiação e, posteriormente, fizeram o convite para que a experiência fosse apresentada no evento estadual. "Foi a partir dessa premiação que surgiu o convite para participarmos do fórum."
Trabalho coletivo
O projeto foi desenvolvido de forma colaborativa, envolvendo profissionais e estudantes de diferentes áreas do conhecimento.
Durante a entrevista, Júnior Maradona citou e agradeceu a participação da acadêmica de Medicina Talita Machado, do estudante de Direito Mauro Neto e dos alunos Lavínia Ferreira e Guilherme Fernandes, do Colégio Estadual da Polícia Militar José Carrilho.
"Fizemos uma composição coletiva, envolvendo estudantes da educação básica, da Medicina e do Direito, para dar sustentação técnica e jurídica à proposta."
O Fórum Goiano de Mobilidade Urbana reunirá especialistas, pesquisadores e representantes do poder público para debater experiências voltadas à construção de cidades mais seguras, acessíveis e sustentáveis. O projeto desenvolvido em Goianésia será uma das iniciativas apresentadas durante a programação do evento.




