Goianésia-O Vale do São Patrício, em Goiás, volta a escrever sua história com o café. Após mais de meio século longe do protagonismo na produção cafeeira, a região vive um novo ciclo impulsionado pela ciência, pela inovação no campo e pelo empreendedorismo rural. O movimento reúne pesquisadores, produtores, instituições de apoio e empresas privadas em torno de um objetivo comum: transformar o Cerrado goiano em referência nacional na produção de cafés especiais.
Tradição histórica retomada
Nas décadas de 1940 e 1950, o Vale do São Patrício era reconhecido pela produção de café. O cultivo ganhou força com pioneiros como Jales Machado, Marcos Monteiro de Barros e Jeremias Lunardelli, considerado um dos maiores produtores de café do Brasil na época. No entanto, mudanças nas políticas agrícolas e incentivos federais para erradicação das lavouras interromperam o desenvolvimento da atividade na região, que passou a dar espaço para outras culturas agrícolas.
Mais de 50 anos depois, a cafeicultura ressurge apoiada em tecnologia, irrigação e pesquisas científicas conduzidas pelo Instituto Federal Goiano, em parceria com a Embrapa, Emater Goiás, Sebrae e Senar.
Ciência impulsiona nova fase da cafeicultura
O gerente de pesquisa agropecuária da Emater Goiás e pesquisador do IF Goiano, Cleiton Mateus Sousa, explica que o potencial da região voltou a ser comprovado após mais de uma década de estudos.
Segundo ele, há 11 anos foi iniciado um experimento científico para avaliar o desempenho de 35 cultivares de café arábica nas condições climáticas do Cerrado goiano, utilizando manejo irrigado de alta precisão.
“Sabíamos da história da nossa região, que já produziu café, mas perdeu expressão porque a atividade deixou de ser fomentada. Ao longo do tempo, outras culturas foram ocupando espaço, enquanto estados como Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo avançavam tecnologicamente na cafeicultura”, afirmou.
O pesquisador destaca que os resultados surpreenderam até mesmo a equipe técnica.
“A gente não esperava médias de produção superiores ao dobro da média nacional em várias cultivares. Além disso, por duas safras consecutivas, 11 materiais apresentaram qualidade acima de 80 pontos, permitindo a classificação como café especial, que possui valor agregado muito maior”, ressaltou.
Produtores apostam em cultura de alto valor agregado
O avanço científico reduziu os riscos de investimento e abriu caminho para que produtores rurais apostassem novamente na cultura cafeeira. Um dos exemplos é o produtor Laerte Oliveira, que decidiu investir no café aos 84 anos.
“Eu precisava buscar alguma coisa rentável para uma área pequena e queria uma cultura perene. Quando conheci o projeto e vi os resultados das pesquisas, resolvi embarcar nessa história do café especial”, contou.
Laerte implantou cerca de 35 hectares de lavoura e afirma que o cultivo representa a realização de um sonho antigo.
“A vida da gente é feita de sonhos e realizações. Não é só dinheiro. Eu acredito que sou pioneiro nesse momento de renascimento do café aqui na região”, afirmou.
Outro produtor que aderiu ao projeto foi Giovanni Machado. Ele relata que a decisão de investir veio após conhecer os estudos desenvolvidos pelo IF Goiano.
“Visitamos lavouras em Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia para entender melhor o cultivo. Depois disso, plantamos cerca de 16.500 mudas aqui na fazenda. As plantas se adaptaram muito bem e, se os resultados continuarem positivos, queremos ampliar bastante a área cultivada”, explicou.
Giovanni acredita que a irrigação e as novas tecnologias mudaram completamente o cenário da cafeicultura em Goiás.
“Na década de 40 e 50, o café não deu certo aqui porque não existia irrigação. Hoje a realidade é diferente e acredito em uma produtividade muito grande”, disse.
Sebrae fortalece gestão e comercialização
Além da pesquisa científica, o fortalecimento do setor conta com o apoio do Sebrae, que atua na gestão, planejamento e inserção mercadológica da produção.
O analista do Sebrae na região, José Neto, explica que a instituição passou a funcionar como ponte entre produtores, pesquisadores e investidores.
“A história do café está profundamente ligada ao Vale do São Patrício. Quando o IF Goiano nos apresentou os resultados da pesquisa, percebemos que ali existia uma oportunidade de negócio para pequenos produtores. O Sebrae entrou justamente para transformar a ciência em empreendedorismo”, afirmou.
Segundo José Neto, a estratégia inclui consultorias, dias de campo, workshops e orientação para comercialização dos grãos especiais.
“O pesquisador desenvolve a tecnologia e nós ajudamos a levar isso ao produtor, transformando conhecimento em renda e oportunidade”, completou.
Mercado promissor atrai empresas e investidores
O mercado de cafés especiais também chama atenção pelo alto valor agregado. Enquanto uma saca de café convencional pode ser comercializada por cerca de R$ 2,8 mil, lotes de cafés especiais de alta pontuação podem alcançar valores superiores a R$ 40 mil em leilões especializados.
O potencial econômico despertou o interesse de empresas já consolidadas no setor, como o Café Franciscano. A gerente financeira da empresa, Ana Cristina Machado de Souza, conta que decidiu investir após conhecer os resultados apresentados pelo IF Goiano.
“Durante muito tempo ouvimos que café não dava certo aqui. Mas quando vimos a segurança técnica e científica do projeto, percebemos que era possível investir”, afirmou.
Ana Cristina destaca que o projeto representa um sonho pessoal e também uma oportunidade de expansão empresarial.
“Agora o desafio é transformar essa lavoura em um negócio lucrativo. O Sebrae está nos auxiliando com o plano de negócio para estruturar toda essa produção”, explicou.
Tecnologia amplia potencial produtivo no Cerrado
A retomada da cafeicultura no Vale do São Patrício também chamou atenção de especialistas de Minas Gerais, principal estado produtor do país. O técnico agropecuário Juliano Modesto, que atua no mercado mineiro, afirma que as lavouras goianas apresentam desempenho semelhante ao observado em regiões tradicionais de produção.
“Hoje temos irrigação, tecnologia e variedades adaptadas ao calor e às altitudes mais baixas. As lavouras daqui estão se desenvolvendo muito bem e têm tudo para dar certo”, avaliou.
Para ele, o café pode se tornar uma alternativa altamente rentável para pequenos produtores.
“Com poucos hectares, o produtor consegue viver bem. Hoje eu vejo poucas culturas com potencial semelhante ao do café especial”, concluiu.
Mais do que resgatar uma tradição histórica, o novo ciclo da cafeicultura no Vale do São Patrício representa geração de renda, fortalecimento da agricultura familiar e desenvolvimento regional. A combinação entre pesquisa científica, inovação tecnológica e apoio ao empreendedorismo rural vem transformando o Cerrado goiano em um novo polo promissor da produção de cafés especiais.




