Segundo ele, a grande quantidade de festas do peão realizadas em Goiás é um diferencial

Goianésia - Antes da programação de shows tomar conta do palco, a 52ª Expoagro de Goianésia mantém um dos pilares mais tradicionais da festa: o rodeio. A competição reúne peões de diferentes regiões, movimenta o setor, atrai milhares de espectadores e segue até domingo (12), consolidando o evento como uma das principais vitrines da modalidade em Goiás.

Em entrevista exclusiva à RVC FM, o narrador oficial da competição, Juliano Reys, trouxe detalhes sobre o nível técnico das disputas, a força econômica do esporte e relembrou a própria trajetória até se tornar uma das vozes mais conhecidas das arenas goianas.

Para Juliano, o rodeio ultrapassou, há muito tempo, a condição de manifestação cultural e passou a ocupar espaço de destaque também como atividade esportiva e econômica.

"O rodeio hoje está acima. O grau de profissionalismo que o rodeio chegou, não só em Goiás, não só no restante do Brasil, é nível mundial. O rodeio hoje deixou de ser aquele esporte folclórico, de ser só cultura, de ser tradição. O rodeio hoje emprega no Brasil mais de 650 mil pessoas diretamente por ano. Ele movimenta mais de 550 milhões com shows, o business e tudo mais. Então, o rodeio hoje é um esporte, mas ele é um movimento comercial muito grande por onde ele passa."

Além da competição, a estrutura envolve profissionais de diferentes segmentos, desde equipes técnicas até empresas ligadas ao entretenimento, à produção de eventos e à criação de animais, ampliando o impacto econômico das festas agropecuárias.

Natural de Ituiutaba (MG) e radicado em Goiás, Juliano divide a rotina entre os microfones do rádio e as narrações nas arenas durante boa parte do ano. Segundo ele, a agenda exige deslocamentos constantes.

"De quinta a domingo a gente acompanha a temporada goiana. Eu me considero filho goiano, já sou cidadão goiano. Nossa temporada é de abril a outubro. Então, de abril a outubro estamos noventa por cento da estrada."

Mesmo conciliando duas atividades, ele explica que cada período do ano é dedicado a uma das profissões.

"É uma loucura. Saio daqui no domingo meia-noite, cinco horas da manhã estou no ar na rádio. De quinta a domingo é rodeio. Segunda a quarta é rádio. Depois que encerra a temporada, a gente fica integralmente no rádio. São duas paixões e, graças a Deus, há vinte anos eu consigo cuidar das duas."

Goianésia volta a receber o narrador após quatro anos

A edição deste ano marcou o retorno de Juliano Reys à Expoagro de Goianésia após quatro anos. O narrador contou que recebeu o convite com entusiasmo e detalhou a satisfação em reencontrar o público da cidade.

"Voltei a Goianésia quatro anos depois. Desde 2022 eu não vinha. Deus me agraciou com mais essa oportunidade e estou agarrando-a com todas as forças, porque eu amo estar aqui."

Ao analisar a abertura da competição, ele afirmou que a participação do público torna cada apresentação diferente.

"Ontem foi uma noite incrível para mim. Você voltar depois de alguns anos e ser recebido da forma que fui recebido é muito especial. Nem sempre o público quer entrar na emoção da abertura, mas, quando ele entra no clima da animação do rodeio, eleva demais o nosso trabalho. Os meus melhores momentos são eu e o público na arquibancada."

Expoagro é considerada vitrine do rodeio goiano

Durante a entrevista, Juliano avaliou o nível técnico da competição realizada em Goianésia e disse que a festa ocupa posição de destaque no calendário estadual.

"O rodeio goiano está num patamar muito grande. Ele não deixou de fazer o folclore, a abertura, a oração, mas consegue manter um nível muito alto de boiadas e competidores. O nosso rodeio aqui da Expoagro de Goianésia é rodeio vitrine, é rodeio referência. O dono da companhia não vai trazer qualquer touro e o campeonato também não vai trazer qualquer competidor. O Brasil todo está acompanhando hoje."

Segundo ele, a grande quantidade de festas do peão realizadas em Goiás contribui diretamente para o desenvolvimento da modalidade.

"Se a gente fizer um levantamento, cerca de 75% das cidades goianas realizam festa do peão. Isso profissionaliza tanto o competidor quanto o dono de boiada. Eles investem em genética, compram animais de fora, fazem inseminação artificial e isso vai elevando cada vez mais o nível das montarias."

Ainda sobre a disputa deste ano, Juliano acredita que o público acompanhará uma competição equilibrada até o encerramento.

"A prateleira está lá em cima. Ontem foi um dia em que os touros levaram vantagem. Hoje pode ser diferente. Pode ser o dia dos competidores. Faz parte do jogo, mas o nível está muito alto."

Da quermesse da igreja às grandes arenas

Muito antes de se tornar narrador profissional, Juliano descobriu a paixão pelo microfone ainda na adolescência, durante uma festa religiosa em sua cidade natal.

"Empunhei o microfone pela primeira vez na quermesse da Igreja Nossa Senhora Aparecida, em Ituiutaba. O leiloeiro adoeceu e eu, com treze ou quatorze anos, pedi ao padre para fazer o leilão. Fiz, achei que tinha saído famoso. Quando desci do palco, meus amigos falaram: 'Pelo amor de Deus, não passa vergonha na gente mais não'. No outro dia eu pedi para fazer de novo. Foi pela insistência."

Depois das primeiras experiências, começou a buscar espaço também nas arenas.

"Fui pedindo oportunidade nos rodeios amadores, narrando as últimas montarias, ganhando experiência. Ninguém cresce gigante. A gente cresce pequeno."

Entrada no rádio exigiu investimento e persistência

Se a carreira nas arenas começou cedo, o ingresso no rádio foi marcado por dificuldades. Juliano contou que chegou a ser reprovado em um teste para locutor, mas decidiu investir no próprio sonho.

"Fui fazer um teste numa rádio AM em Ituiutaba e fui reprovado. Quando a diretora foi me dar a notícia, perguntei se ela tinha um horário para vender. Ela disse que aos domingos estava livre. Eu comprei esse horário por quinhentos reais. Na época eu era técnico em eletrodomésticos e trabalhava de carteira assinada para pagar o meu programa de rádio."

O investimento deu resultado poucos meses depois.

"Foram seis meses. Depois eles me contrataram como locutor diário. De lá fui para a FM e, em 2010, vim para Goiás. Minha vida transformou aqui."

Mudança para Goiás abriu novos caminhos

A transferência para o estado ocorreu após convite de um grupo de comunicação, decisão que, segundo ele, inicialmente parecia improvável.

"Eu falei que nunca iria para Goiás porque teria que deixar minha mãe, os amigos, minha vida em Ituiutaba. Mas fui convencido e, em 2010, estreei na Positiva FM. Fiquei lá treze anos e depois saí para esse novo projeto."

Hoje, Juliano integra a equipe da Brahma FM, emissora idealizada por ele e um sócio.

"A Brahma FM é um projeto nosso. Escrevemos a ideia da rádio, conseguimos tirar do papel com o aval da Brahma e hoje é uma rádio diferente, com palco dentro do estúdio, boteco da Brahma e muita música. Quando inauguramos, não tínhamos locutor, repertório nem estúdio. Tivemos que montar tudo em trinta dias. Nesse processo aprendi a ser programador, diretor artístico, jornalista e muita coisa mais."

Ao falar sobre a própria caminhada, o narrador deixou uma reflexão construída ao longo da carreira.

"Às vezes a gente quer pular os degraus. Deixa as coisas acontecerem. Vai caminhando degrau por degrau, porque o sabor lá em cima é completamente diferente. O mais importante não é só a conquista, é tudo o que você aprende durante o percurso."